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domingo, 15 de junho de 2014

Família

Não me dou bem com a minha família. São pessoas que não me dizem nada e que quando acabar o curso, vou simplesmente me mudar. Não acho que me vá custar, porque basicamente o que temos em comum é o DNA. Nunca sofri maus-tratos, nem nada do género, simplesmente não somos unidos, temos ideais completamente opostos e não me sinto bem com eles. Não os vejo como família. Mas acredito que poderei vir a encontrar uma no futuro. Sou da opinião que família são aqueles por quem nós nutrimos um sentimento de amor, amizade, preocupação, cumplicidade, independentemente de sermos biologicamente ligados a eles ou não.

[Pensando bem, acho que é uma das razões pela qual eu quero adoptar. Se algum dia me aceitarem como mãe (eu não pretendo adoptar crianças pequenas), não quero que seja por termos o mesmo sangue.]

sábado, 19 de abril de 2014

A minha Páscoa

Hoje fui à Igreja confessar-me. Não fui por vontade própria obviamente, fui por causa da minha mãe: nunca tive coragem de lhe contar que sou agnóstica, por um lado para evitar confusões, por outro porque tenho medo da reacção dela. Muitas vezes penso também, que pode haver alguma altura em que me sinta mais em baixo e que os meus pensamentos suicidas passem de apenas pensamentos a acções e ao menos assim vou poupá-la de mais um desgosto. No fundo acho que ela desconfia que eu não sou católica pelas minhas acções, mas  continua a ignorar isso, nunca me pergunta e eu também não sou capaz de tocar no assunto e acho que ela também tem esperança que eu ainda acredite em Deus, que me arrependa do que fiz e que volte para o "caminho de Deus".
Na Igreja havia 2 padres: um estava no confessionário e o outro estava ao fundo da Igreja. A minha mãe foi ao segundo e como ela falou relativamente alto, eu ouvi partes. A minha mãe falou de mim quase a chorar a falar das minhas tentativas de suicídio, a dizer que não sabia o que fazer, que eu até andava a ser acompanhada por um psiquiatra. No fundo acho que a minha mãe gosta de mim (pelo menos da minha imagem de criança) e sei que ela se sente extremamente culpada, como se tivesse falhado na minha educação uma vez que o suicídio é um pecado e então ela não me conseguiu levar ao encontro de Deus. A verdade é que me senti extremamente mal lá dentro.
Depois chegou a minha vez e falei com o padre que se encontrava dentro do confessionário. Disse-lhe que não era crente e ele até foi simpático. Aceitou bem o que eu disse e falámos um bocado para passar o tempo. Falou-me bastante de Jesus (talvez achasse que eu acreditaria em Jesus ou lhe daria alguma importância). Elogiou -o bastante, contou várias histórias onde a sua bondade era evidente e depois do que eu tinha ouvido da minha mãe eu só pensava "Jesus (ou a imagem dele) foi uma boa pessoa em muitos aspectos, mas caramba eu também tenho virtudes mas aos olhos da minha família vou ser sempre condenada, nunca vou ser aceite". Foram estes pensamentos que no 10.º ano me fizeram querer afastar da Igreja e pensar que mesmo que algum Deus exista, ele nunca me iria aceitar como eu sou, assim como a minha família, e por isso teria de viver a minha vida como se Ele não existisse e eventualmente isso permitiu-me ser mais livre, sentir-me melhor comigo própria. Mas é nestas alturas do Natal e da Páscoa onde me é impossível ignorar a desilusão que eu sou para a minha mãe (já nem falo no meu pai, porque não temos uma relação pai-filha). Estou a chorar há 2 horas e nem sei bem porquê, tenho demasiados pensamentos na minha cabeça. Tenho que sair de casa por este motivo: nunca serei aceite na minha família, nunca passarei da filha pecadora e da irmã que é uma freak.
Para o ano vou estar em Lisboa e vai-me custar mais que tudo deixar o meu cão para trás, mas sei que se continuasse aqui não ia aguentar e já prevejo o que vai acontecer: nunca vou ter vontade de voltar para casa, porque de facto esta não é o meu lar, o sítio onde me sinto bem comigo mesma, onde posso ser autêntica. (Na verdade, deve ser o sítio onde eu finjo mais ser aquilo que não sou).
Provavelmente nunca irei conseguir falar com a minha mãe sobre este assunto, daqui a uns anos irei simplesmente sair de casa definitivamente. Mas o que eu gostaria de dizer à minha família era isto:
Tenho pena que nunca tenham visto mais além, nunca me tentassem conhecer, saber o que penso. Na vossa ideia até podia parecer que estavam a tentar, mas os comentários que vocês iam fazendo num simples jantar ou discussão dos assuntos do quotidiano sempre me fizeram sentir pequena, que eu não pertencia ali. Mas apesar da minha baixa auto estima eu tenho noção que não sou má pessoa: sempre tento ajudar os outros, tento pôr toda a gente feliz, mesmo quando estou extremamente mal,  não sou  preconceituosa e acho que isso é o essencial. Mesmo que tivesse uma religião diferente ou divergisse de vocês a nível de ideias, gostava mesmo que vocês tivessem simplesmente aceite a pessoa que eu era, me dessem espaço e liberdade de escolha, me respeitassem (tal como eu vos respeitei a vocês) e principalmente que não me julgassem. Não, não fui a filha/irmã perfeita, mas eu nunca irei ser motivo de orgulho para vocês, não vou mudar a minha maneira de ser e mãe, eu sei que o teu Deus considera por exemplo o suicídio um pecado e que à partida já estaria condenada, mas o que eu sempre quis é que tu me aceitasses tal como eu era, independentemente das minhas escolhas e não estivesses sempre a me tentar "curar", a tentar reencarnar em mim a pequena Izzie, perfeitinha como tu querias.

sábado, 12 de abril de 2014

'cause she's just like the weather, can't hold her together

Nos últimos dias andava mais animada do que o costume. Achava que realmente estava a ficar melhor. Mesmo cá em casa falava mais com a minha família porque estava determinada a dar-lhes boas memórias enquanto ainda estiver cá. Partilhei algumas coisas do que estava a fazer, falei sobre os exames e a universidade, porque eu acho que ao falar do futuro as pessoas esquecem que eu estou suicidal ou então pelo menos vão pensar que foi uma fase má e que já passou, que já caí em mim. Eu faço de tudo para que as pessoas pensem que eu estou bem, mesmo quando estou mal (daí me custar imenso ouvir comentários de que só faço as coisas que faço por atenção, quando o que eu realmente queria era desaparecer, ser invisível). 
Hoje foi um daqueles dias em que estava super bem disposta mesmo, falei da universidade mas as coisas que dizia eram sentidas. Queria conhecer Lisboa, conhecer novas pessoas, viver na minha residência e a certa altura comecei a sentir-me extremamente culpada por ter partilhado coisas com a minha família, ainda que não pessoais, de certeza que não vão respeitar a minha privacidade e vão falar sobre o quão melhor eu estou e assim. Eu acho que isto me incomoda, porque eu só queria a minha vida de volta ao normal, onde se eu tivesse bem ou mal, não era notada. E comecei a sentir-me de tal forma culpada já não conseguia pensar noutra coisa, já não me apetecia desenhar, já não me apetecia fazer nada. Comecei a pensar em todas as coisas más que já me aconteceram e em tudo o que me arrependo. Ainda não me cortei, mas estou a tremer por todo o lado, a controlar-me para não chorar, porque sei que mais tarde me vou arrepender porque eu quero voltar para a natação, mas sinceramente não sei quanto mais tempo vou conseguir aguentar. Estava tão bem e de repente parece que estou no fundo do poço outra vez. Se tivesse numa ponte, saltaria de certeza. Nestes momentos nem o pensamento de o meu cão vir a sofrer as consequências me acalma (sou eu que tomo conta dele e tenho medo de como a minha família o poderia tratar se eu não tivesse aqui.). Neste momento sinto-me completamente ridícula, pensar que foi um simples cão que me impediu de por fim à minha vida anteriormente. Às vezes penso que ele foi a melhor coisa que já me aconteceu, que me deu forças para viver, outras acho que foi a pior, sinto-me responsável por ele e não consigo partir.
Mesmo nos dias em que estou bem, tenho noção que se um camião estivesse a vir na minha direcção eu não me desviaria. Há dias em que eu desejo que aconteça, de modo a que eu não me sinta culpada e deste modo a minha família não se sentiria culpada também, iriam seguir em frente, todos seríamos felizes. Às vezes sinto que por ter uma mentalidade aberta seria capaz de tornar o mundo melhor, outras acho que não pertenço aqui, só quero morrer. Lembro-me tantas vezes da minha primeira tentativa, estava cheia de medo de morrer, agora nem isso tenho, porque mesmo que exista um Deus ou que eu vá para o Inferno ou whatever, eu não quero estar com um Deus que me causou tanto sofrimento, que nos julga, que nos amas "a menos que". Mesmo que haja vida depois da morte, estarei com pessoas que como eu, viemos por "engano". Eu tento fazer sempre os meus pais orgulhosos de mim, mas eu nunca voltarei a ser a criança que eu era, essa já morreu há muito, eu vejo fotos de mim mesma e não me reconheço, é como se estivesse a ver fotos de uma criança parecida comigo, mas aquela não sou eu.
O meu humor varia entre a mais pequena coisa me fazer feliz ou infeliz e é esta constante mudança entre estar completamente bem ou completamente mal que me deixa doida, como se eu não estivesse fora de controlo e me faz mais do que tudo querer desistir. Mesmo quando estou bem, estou sempre à espera de ficar mal. Quando me deixo levar pelos sentimentos positivos, a queda é maior. Não faço grandes planos para o futuro e mesmo quando estou feliz os planos mais longos que faço são cerca de 10 anos (tempo de vida restante do meu cão).

Para piorar ao jantar a minha mãe falou da segunda guerra mundial, de como o povo alemão era fraco e que a prova disso era um governador deles se ter suicidado, que não havia povo mais fraco. Insistem em dizer estas coisas às refeições à minha frente. Sinto-me magoada e estúpida me preocupar com eles..